8 de nov de 2013

Resenha do texto “Turismo Religioso Popular”

Resenha do texto “Turismo Religioso Popular”

1- SILVEIRA, Emerson J. Sena da. Turismo religioso popular? Entre a ambiguidade conceitual e as oportunidades de mercado. In: Revista de Antropología Experimental. Universidad de Jaén (España). n. 4, 2004.

“(...) os rituais/eventos/festas, que eram primordialmente manifestações de fé e religiosidade, se tornam, na sociedade de consumo atual, espetáculos artísticos, culturais e turísticos (Felipe, 2001).”

No presente texto, o autor Emerson Silveira vem apontar a inadequação ao termo “turismo religioso popular”, apresentando uma série de exemplos teóricos e práticos que desqualificam o termo, porém com ressalvas: na falta de amplo entendimento no assunto ligado ao turismo e aos eventos religiosos, por carecer de estudos mais amplos e aprofundados, a nomenclatura “turismo religioso popular” se mantém até que novo termo mais adequado seja cunhado para indicar a crescente busca de pessoas por eventos de caráter religioso, seja a intenção destas puramente de entretenimento ou mesmo por devoção ao elemento religioso explorado.

Como tornar uma manifestação popular religiosa em empreendimento turístico rentável sem, contudo, macular a própria expressão de fé de adeptos, que participam das festas e peregrinações motivados por sua devoção ao Santo ou ao evento destinado a honrar uma data originalmente de cunho religioso?

Emerson Silveira aponta a contradição entre os termos “turismo”, “religioso” e “popular”, no sentido intencional de cada um. Tem-se por definição que ‘turismo’ está ligado ao lazer, ao entretenimento ou aos negócios; que religião é algo sério, que existe no plano abstrato dos sentimentos, na necessidade de evolução acima do plano humano que somente pode ser alcançado ao se abandonar o mundano; e ‘popular’, que tanto pode se tratar de uma aglomeração grande de pessoas quanto algo que se contrapõe ao erudito ou, ainda, aquilo que é de baixa renda.

Romarias e peregrinações poderiam ser consideradas também turismo, visto que são fenômenos de deslocamento humano, porém os sentimentos que animam o peregrino não são os mesmos que animam o turista, daí o conflito entre os termos “turismo religioso”. E se os eventos religiosos podem ser chamariz para atrair um determinado tipo de turista, logo tais eventos podem ser mercantilizados, perdendo com isso o seu caráter autêntico e o sentimento básico que anima os devotos, que é a devoção. De sagrado a tornar-se profano é apenas um passo, como já se tornou muitos eventos religiosos, descaracterizando o original e imprimindo nova roupagem sempre de acordo com o potencial financeiro que tal evento pode gerar.

O autor também aponta para a ainda limitada visão dos “organizadores” do turismo religioso, que divulgam, em sua maioria, apenas eventos católicos, quando o Brasil dispõe de amplo e rico calendário de eventos de diversas outras religiões, lugares sagrados ou ecumênicos como, por exemplo, o caso da Festa de Yemanjá na Bahia, que é a segunda maior festa ecumênica do país; Ilê Iyá Omin Axé Iyá Massê (o Terreiro de Mãe Menininha do Gantois); os festivais de música Gospel; o Vale do Amanhecer; o Templo da Boa Vontade e demais localidades e manifestações de religiões diferentes do catolicismo.

Porém, é importante perceber que os principais promovedores de tal turismo religioso são pessoas ligadas à Igreja Católica, que já está “tradicionalmente” inserida no âmbito turístico há séculos, embora somente agora se pense em primeiro plano no potencial econômico que a atividade pode proporcionar. Percebe-se que a principal preocupação é de como utilizar de um evento sacro sem torná-lo profano, descaracterizando-o em sua essência para atender a um setor puramente econômico. Tal qual o fato do “ecoturismo” orientado apenas para o consumo e lucratividade, o “turismo religioso” poderá destruir o sistema que o gera e promove, tornando as manifestações religiosas populares em meros espetáculos para turista ver.

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